Uma mensagem em ecrã inteiro exige um resgate em bitcoin, os seus documentos têm uma extensão estranha (.locked, .lockbit, .crypt), o seu antivírus desligou-se ou foi desativado. Está perante um ransomware. As próximas horas decidem o que poderá recuperar.
Este guia reúne a metodologia de resposta aplicada pelos CSIRT e pelas seguradoras cibernéticas em 2026, adaptada ao caso pessoal (um único posto, não um SI empresarial).
Compreender exatamente o que aconteceu do ponto de vista técnico
Antes de agir, dedicar um minuto a compreender tecnicamente o que o ransomware fez muda por completo as opções de recuperação ainda em aberto. O desconhecimento destes mecanismos leva muitos utilizadores a decisões catastróficas nas primeiras horas — formatação imediata, pagamento do resgate ou, pior, reinício da máquina sem precaução.
O ransomware moderno segue geralmente três fases distintas no momento do ataque. Fase inicial: executa-se de forma discreta e explora o sistema para identificar os discos ligados (locais, USB, rede partilhada) e estimar o volume a cifrar. Fase de cifragem: gera um par de chaves AES por ficheiro (ou por pasta consoante a variante), cifra cada ficheiro no lugar ou cria uma cópia cifrada e depois apaga o original, e em seguida cifra as chaves AES com uma chave pública RSA do servidor do atacante — é precisamente este último passo que torna a desencriptação impossível sem a chave privada detida pelos atacantes. Fase de visibilidade: deixa notas de resgate e muda o fundo do ecrã para se tornar visível.
A nuance técnica crítica: a cifragem por ficheiro com AES pode demorar várias horas numa máquina grande (200 000 ficheiros, 2 TB). Se detetar a infeção antes de o processo terminar, desligando rapidamente a máquina (manter o botão de ligar premido 10 segundos, não um encerramento limpo do Windows), pode salvar ficheiros ainda não processados. Pelo contrário, se reiniciar a máquina depois de concluída a cifragem, o ransomware pode relançar um ciclo sobre os ficheiros recém-criados desde a primeira passagem. A reação certa nunca é o reinício imediato.
A outra nuance importante diz respeito às Volume Shadow Copies do Windows. O mecanismo do sistema que permite voltar a versões anteriores dos ficheiros é visado prioritariamente por 95% do ransomware moderno — executam vssadmin delete shadows /all nos primeiros segundos para eliminar esta via de recuperação. Mas algumas variantes falham parcialmente ou esquecem alguns volumes (nomeadamente discos externos não cifrados). Verificar a possível sobrevivência das cópias-sombra antes de tocar no sistema é gratuito e pode poupar horas de trabalho.
Por fim, as cópias de segurança ligadas no momento do ataque também são visadas e cifradas pelo ransomware moderno. Se o seu disco de cópia externo estava ligado por USB ou o seu NAS estava montado como unidade de rede no momento do incidente, considere-os comprometidos até prova em contrário. É exatamente a lógica da regra 3-2-1 com uma cópia fora do local ou desligada — é o que realmente o salva no cenário de ransomware.
Fase 1 — Isolar imediatamente (primeiros 5 minutos)
Não tente compreendê-lo de imediato. O ransomware está provavelmente ainda a cifrar.
- Desligue o cabo Ethernet e desative o Wi-Fi (modo de avião).
- Retire todos os discos externos e pens USB. O ransomware moderno (Conti, LockBit, BlackCat) ataca ativamente os suportes ligados.
- Se estiver numa rede partilhada (NAS, partilha Windows), avise os outros utilizadores e desligue-os também. O ransomware pode propagar-se por SMB.
- Não desligue o PC de forma brusca. A memória pode conter a chave de cifragem, explorável por algumas ferramentas forenses.
Nesta fase, a cifragem ativa para (o ransomware precisa de rede ou disco para continuar). Respire fundo.
Fase 2 — Documentar para queixa e desencriptadores
Com outro dispositivo (telemóvel, segundo PC), constitua um dossiê de provas:
- Fotografia do ecrã de resgate.
- Registo do nome do ficheiro README deixado pelos atacantes (muitas vezes README.txt, HOW_TO_DECRYPT.html, etc.) e do seu conteúdo completo.
- Anote a extensão acrescentada aos ficheiros cifrados (
.locked,.lockbit3,.crypt, etc.). - Hora aproximada da descoberta.
- Lista dos programas que estavam em execução pouco antes.
- Origem provável (anexo de email, ligação suspeita, atualização de software pirateado).
Estes elementos sustentam a queixa (necessária para ativar o ciberseguro) e a identificação da estirpe.
Fase 3 — Identificar a estirpe
No outro dispositivo, vá a id-ransomware.malwarehunterteam.com (projeto mantido por Michael Gillespie desde 2016). Carregue um ficheiro cifrado + o README. A ferramenta reconhece a maioria das estirpes em segundos. Para o passo a passo completo e as armadilhas da identificação, veja o nosso guia de identificação com o ID Ransomware.
Uma vez identificada, procure um desencriptador gratuito no No More Ransom — iniciativa conjunta da Europol, da Polícia Nacional dos Países Baixos e de vários fornecedores de antivírus. A base de dados cobre mais de 200 estirpes em 2026, incluindo algumas famílias muito difundidas (Phobos, STOP/Djvu — parcialmente, Avaddon, REvil). Se ainda não existir um desencriptador público, guarde os ficheiros cifrados: a nossa metodologia completa em desencriptar ransomware sem pagar enumera as vias restantes (fugas de chaves, vulnerabilidades, janelas de divulgação pública).
Se existir um desencriptador: siga as suas instruções à letra, teste primeiro num ficheiro copiado (nunca no original).
Fase 4 — Restaurar a partir de uma cópia limpa
A via de recuperação mais fiável, se tinha uma cópia de segurança.
Caso 1 — Cópia na nuvem com versionamento
OneDrive, Google Drive, Dropbox, Backblaze, IDrive e equivalentes guardam versões anteriores dos ficheiros. Concretamente:
- OneDrive: web → ficheiro → menu de três pontos → Histórico de versões. Permite restaurar a versão anterior à cifragem.
- Google Drive: web → ficheiro → botão direito → Gerir versões.
- Backblaze Computer Backup: interface web → botão Restore → escolha uma data anterior ao ataque.
- iCloud: limitado, não armazena todas as versões; verifique o site do iCloud Drive.
Restaure ficheiro a ficheiro ou em massa através das APIs dos serviços. Não volte a ligar a máquina infetada à sua conta na nuvem até estar limpa.
Caso 2 — Cópia local (disco externo / NAS)
Se tinha desligado o disco entre as cópias, é provável que esteja seguro. Para verificar:
- Noutro PC limpo, ligue o disco em modo só de leitura (leitor USB com interruptor de proteção contra escrita, se possível).
- Abra ficheiros recentes — se abrirem normalmente, a cópia está intacta.
- Apague e reinstale de forma limpa o sistema operativo no PC infetado.
- Restaure a partir da cópia depois de o sistema estar reconstruído.
Se o disco externo estava ligado durante o ataque, trate-o como potencialmente cifrado. Analise o seu conteúdo — os ficheiros recentes provavelmente terão a mesma extensão.
Fase 5 — Recuperar cópias-sombra e ficheiros residuais
Sem cópia e sem desencriptador, restam duas vias:
Cópias-sombra do Windows
O Windows cria por vezes cópias-sombra (instantâneos de volume) que o ransomware tenta apagar com vssadmin delete shadows /all. Mas muitos esquecem algumas partições ou são interrompidos.
Para verificar:
- Abra uma linha de comandos de administrador →
vssadmin list shadows. Se listar cópias, há esperança. - Use o ShadowExplorer (gratuito, open source) ou o EaseUS Data Recovery Wizard para explorar as cópias-sombra e restaurar ficheiros anteriores à infeção.
Recuperação de ficheiros temporários e assinaturas binárias
O EaseUS Data Recovery Wizard também pode analisar os setores livres do disco à procura de fragmentos não cifrados: ficheiros Office .tmp, gravações automáticas da Adobe, scratch do Photoshop (.psb), miniaturas EXIF de fotografias.
Procedimento:
- Instale o EaseUS Data Recovery Wizard numa pen USB ou noutro PC (não no sistema infetado).
- Ligue o disco infetado em modo só de leitura no PC limpo (ou arranque a partir de um live USB de recuperação).
- Execute uma análise profunda.
- Filtre por tipo de ficheiro (.docx, .jpg, .xlsx) e por data anterior à infeção.
- Restaure para um disco limpo.
Nos últimos seis testes documentados por casos da comunidade de apoio, este método recuperou 15 a 40% do conteúdo — não é o ideal, mas muitas vezes melhor do que zero.
Execute uma análise com o EaseUS Data Recovery Wizard
Fase 6 — Comunicação, notificação e reforço
Apresentar queixa
- França: esquadra ou online em cybermalveillance.gouv.fr. A queixa-crime ativa o ciberseguro.
- Estados Unidos: comunicação ao IC3 (ic3.gov).
- Reino Unido: Action Fraud (actionfraud.police.uk).
- UE: Europol através do portal nacional.
Notificação RGPD
Se tratar dados pessoais de terceiros (clientes, colaboradores, contactos), uma notificação ao abrigo do RGPD em 72 horas é obrigatória em caso de fuga provável. Em Portugal, a comunicação é feita à CNPD.
Reconstruir e reforçar
Após o incidente, nunca volte a ligar um sistema infetado sem uma reinstalação limpa. E antes de o repor em serviço:
- Atualizações do sistema operativo em dia, EDR em dia.
- Cópias 3-2-1 aplicadas com rigor, incluindo uma cópia fora do local imutável.
- Autenticação multifator em todo o lado (correio, nuvem, acesso remoto).
- Macros do Office desativadas por predefinição.
- Extensões de risco (.exe, .scr, .js, .vbs, .iso, .img) filtradas na gateway de correio.
Veja o nosso guia Cópia de segurança automática Windows / Mac 2026 para configurar uma estratégia de cópia resistente a ransomware. Para um contexto empresarial (PME, multiposto, NAS, cópias Veeam), a nossa ficha proteção contra ransomware para empresas 2026 cobre os controlos adicionais (segmentação, imutabilidade, EDR, exercícios de recuperação).
Não pagar: porquê
As autoridades (ANSSI, FBI, CISA, Europol) desaconselham unanimemente o pagamento. Razões:
- Sem garantia de recuperação: 1 em cada 4 vítimas não recebe uma chave funcional após o pagamento (Sophos State of Ransomware 2024).
- Financiamento do cibercrime: o seu pagamento financia a próxima campanha.
- Marcado como alvo rentável: os atores partilham listas de pagadores. As reinfeções são frequentes em 18 meses.
- Sanções: pagar a certos grupos (em listas OFAC, UE, ONU) pode constituir crime.
Reflexo certo: restaurar a partir de cópia ou desencriptador, reforçar, tirar as lições.
Recursos
- No More Ransom — Ferramentas de desencriptação gratuitas
- ID Ransomware — Identificar a estirpe
- CISA — StopRansomware.gov
- FBI — Página sobre ransomware
- O nosso guia de cópia de segurança automática
Back up now so ransomware can't win → EaseUS Todo Backup
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